segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Viva la vida, viva el vino e vamos a ganar

Sabia, desde de quando não a entendia em sua plenitude, que a saudação continha uma idéia da vida. Era assim que o Traful encerrava qualquer carta. Eram tempos que escrevíamos cartas, esperávamos ansiosos semanas por elas que tantas vezes não chegavam, não sabíamos nem se haviam existido- "perdiam-se na mão de um censor, um policial, um militar ou talvez simplesmente um correio relapso ou um carteiro preguiçoso. Eram tempos bem mais sombrios do que hoje. Mas esperávamos todos os dias o horário do correio e corríamos sempre quando tocava a campainha. Eram tempos de medo, a não carta podia significar a não existência, o "desaparecimento", a prisão, a morte.
Vamos a ganar era a nosso viver, acreditávamos num mundo mais justo, mais igualitário - alguns pagaram muito caro por isso e outros pagaram caro - para ninguém saiu em conta. Mas acreditávamos com convicção e paixão, muita paixão.
Já faz bem mais de 30 anos. Era um homem grande e forte. Amava o meu amor. E, meu amor o amava. Sentimento que transpassava em muito a compreensão permitida para uma garota de 16 anos, mas que, talvez por intuição, talvez pelo inatingível, aceitei e pude perceber-lhe a força.
Homem do mundo, por necessidade e por natureza, era intenso - para bem e para o mal, assim somos os "intensos". A vida não lhe foi fácil, mas para quem que é?
Morreu essa semana na França. Não o vejo há mais de 20 anos. Não o verei mais. Mas posso compreender e sentir: "viva la vida, viva el vino e vamos a ganar". Não foi bem assim, mas deveria ter sido.

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